O riso da Medusa, Hélène Cixous
A leitura de “O riso da Medusa” é o meu primeiro contato com a escrita de Hélène Cixous, graças, é claro, à chegada do livro ao Brasil. Essa linda tradução e edição da Bazar do Tempo tem sua publicação original em 1975, e só agora, em 2022, pude lê-la. Demorou muito para que isso acontecesse, e isso, podemos afirmar, se deve ao comum apagamento das vozes femininas em diversas esferas. Porém nunca é tarde para os bons encontros, e me sinto feliz de poder conhecer uma voz tão potente a partir de um texto tão bonito, político e poético como esse.
O texto é uma convocação para uma escrita que também convoca o corpo. “Eu falarei da escrita feminina: do que ela fará. É preciso que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça as mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos.” (Pág. 41)
Embora estejamos num tempo diferente desse chamado de Cixous, acredito que ainda seja importante relançar o que ela propõe, que é um convite para ler e ouvir outras mulheres e incitar que outras também escrevam suas palavras de corpo. O que me leva a um trecho lindíssimo do texto:
“Elas habitaram furiosamente esses corpos suntuosos: admiráveis histéricas que submeteram Freud a momentos tão voluptuosos e inconfessáveis, bombardeando sua estátua mosaica com suas carnais e apaixonadas palavras de corpo, assombrando-o com suas inaudíveis e fulminantes denúncias, mais do que nuas sob os sete véus da modéstia, deslumbrantes. Aquelas, que, numa só palavra corpo, inscreveram a imensa vertigem de uma história separada como uma flecha de toda a história dos homens, da sociedade bíblico-capitalista, são essas mulheres, as supliciadas de ontem, que precedem as novas mulheres, depois das quais nunca mais nenhuma relação intersubjetiva será a mesma. É você, Dora, você, a indomável, o corpo poético, a verdadeira “mestra” do Significante.” (Pág. 65)