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A história narrada por Kambili é carregada de violências, e todas elas me assombram de maneiras diferentes. Fica evidente a presença dos restos do colonialismo nas vidas dos nigerianos e das nigerianas, sobretudo o cristianismo, que sempre foi instrumento de dominação dos colonizadores, durante e após o período colonial, infligindo suas crenças religiosas e impondo normas e valores familiares. Além disso, a história mostra que a mulher foi duas vezes colonizada: primeiro, pelo colonizador, condição que se desdobra a todos os membros da colônia; segundo, pelo patriarcado, por isso sofre até hoje consequências desse processo. Sinto-me assombrada, mas esse afeto também me humaniza. Aliás, o que será que acontece quando deixamos de nos assombrar diante da violência? Talvez a gente deixe de fazer as outras perguntas, aquelas cujas respostas não queremos ouvir, como disse Kambili.

Paulo Freire, em seu livro-diálogo com Antonio Faundez, “Por uma pedagogia da pergunta”, diz o seguinte: “… quando uma pessoa perde a capacidade de assombrar-se, se burocratiza. Me parece importante observar como há uma relação indubitável entre assombro e pergunta, risco e existência. Radicalmente, a existência humana implica assombro, pergunta e risco. E, por tudo isso, implica ação, transformação. A burocratização implica a adaptação, portanto, com um mínimo de risco, com nenhum assombro e sem perguntas. Então a pedagogia da resposta é uma pedagogia da adaptação e não da criatividade. Não estimula o risco da invenção e da reinvenção. Para mim, negar o risco é a melhor maneira que se tem de negar a própria existência humana.”

Nesse sentido, a pedagogia da resposta se articula com a ideia que Chimamanda apresenta em seu livro “O perigo de uma história única”, no qual a autora nos alerta sobre o perigo da circulação de histórias únicas e respostas hegemônicas, principalmente quando muitas delas são ideias opressoras e silenciadoras de outras formas de existência e de pensamento. Cito Chimamanda:

“As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.”

“Assim como o mundo econômico e político, as histórias também são definidas pelo princípio de nkali: como elas são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas são contadas depende muito de poder.”

Por fim, eu desejo – profundamente – que o assombro diário ao qual temos sido submetidos no Brasil nos traga indignação o suficiente para que façamos aquelas perguntas que perturbam os poderes, justamente para termos a chance de inventar novas histórias, em vez de somente reproduzi-las. E que não nos falte combustível para protestar diante daqueles que se colocarem contra o povo e contra a vida.

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