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Testemunhamos dia a dia os benefícios de conquistas tecnológicas favorecendo descobertas em vários campos, no campo da medicina hoje contamos com novos medicamentos para o tratamento como câncer, aparelhos de diagnósticos precisos e rápidos, na comunicação vemos a qualidade e diversidade nas ligações telefônicas e o acesso à informações que a internet disponibiliza, os incrementos tecnológicos que ganharam os bens de consumo. Cada um dos avanços conquistados é a prova de que muita coisa mudou e tem mudado mesmo. Tantas novas descobertas e criações foram promovidas por pessoas que pensam e desenvolvem ideias, portanto, por trás das notícias desses avanços, existe um trabalho que não pode ser desconsiderado, existem pessoas fazendo com que as coisas aconteçam.

Há quem diga que anda cada dia mais complicado viver nesse mundo mudado, que a competitividade comum do âmbito profissional tem invadido também as relações pessoais, e que toda essa exigência exacerbada tem feito da busca por uma posição favorável, bastante penosa. O mundo está sempre em constante mudança, e essas mudanças provocam sensíveis alterações nas posições subjetivas e, consequentemente, mudanças nas formas de sofrer psiquicamente.

Inevitavelmente, as mudanças que ocorrem no mundo implicam em mudanças nas formas de sofrer do sujeito. Ao longo do tempo, ocorrem transformações que dizem respeito a alterações nos laços sociais, nas relações de trabalho, nas relações familiares, e também na relação do sujeito consigo mesmo. Cada época há o seu sofrer. Se a histeria foi a forma de sofrimento mais manifesta no final do século 19 e início do século 20, a depressão sem dúvida é a marca mais fiel do fim do século 20 e nascimento do século 21. Um grande número de casos de depressão vem sendo constatados nos consultórios médicos, psicológicos e nas unidades de saúde mental.

Clinicamente falando, as transformações acontecem no sentido de notar no sofrimento não só algo que precisa de acolhimento, mas algo que diz alguma coisa de cada sujeito e de como cada um vive seu sofrimento. Jacques Lacan considera que esses sofrimentos não são doenças e nem são mentais, mas isto não significa que não seja uma forma de sofrimento, apesar de não existirem exames para provar que uma doença mental está ali.

Nesse sentido, para descobrirmos e caracterizarmos um sintoma, não basta enquadrar e dar um nome, é preciso entender algo a mais na dinâmica do sofrimento. Podemos citar como exemplo o caso de um sintoma obsessivo, o sujeito nunca tem a certeza de que fechou a porta. Essa dúvida é causadora de grande sofrimento, pois demanda uma energia mental absurda, e na tentativa de acalmar e amenizar a angústia, ele vai até lá conferir e livrar-se da dúvida.

Para que esse sofrimento possa ser amenizado e melhorado, investiga-se essa força maior que não é possível nomear. O que ela tem a dizer? Qual é sua relação com a liberdade do sujeito? O que ele perde quando ele “tem que” conferir se a porta está fechada? O que ele perde quando ele “não pode” deixar de conferir? Questionamentos como esses têm uma articulação com a liberdade. Uma fração da liberdade que foi perdida, por vários motivos, prejudicando sua possibilidade de desejar, sonhar, ou querer.

Se o que está em jogo em toda forma de sofrimento é uma parte da liberdade que foi perdida, isso muda a maneira de pensar o sofrimento, pois assim é possível pensá-lo como uma experiência comum, que convoca a todos. Neste contexto, há uma parte da liberdade que precisa ser reinventada, o que se relaciona com a forma de cada um se expressar. As relações com os outros, têm expectativas e demandas, as pessoas que não conseguem expressar ou articulá-las da melhor forma, tendem a iniciar ataques contra suas relações. Em alguns casos, elas nem percebem o que estão fazendo ou de que estão sofrendo. Aqueles que dizem ser normais e não estarem sofrendo, podem na verdade ser sujeitos que, por um preço, se adaptaram. Nestes casos, as primeiras queixas ou suspeitas de um sofrimento psíquico costumam aparecer através da percepção de alguém do convívio próximo.

Para cada época uma forma de sofrer. Freud vai dizer que isso que aparece e varia de época em época, que não tem lugar e não tem nome, é um mal-estar. Afirma ainda que, quando damos um nome a ele, torna-se um sofrimento psíquico. Se este puder ser articulado em narrativa pelo próprio sujeito, elevado ao status de enigma, chega à condição de sintoma.

Não estaria o sofrimento do sujeito contemporâneo ligado às exigências, jamais satisfeitas, de consumo excessivo, típicas da formação de identidade moderna? Acredito que sim, o ideal de perfeição dominada pela ideia de felicidade, juntamente com as possibilidades de escolhas ilimitadas e variadas, acabam abrindo caminho para uma certa intolerância ao sofrimento, dando espaço ao maior consumo de remédios para abrandá-lo.

A psicanálise vai dizer que existe neste sofrimento uma história, um mito, um código, e que “apesar de tudo” há uma permanência e uma repetição dessa experiência de sofrimento. A incapacidade de falar sobre esse sofrer é, na verdade, a incapacidade de reconhecer-se no sofrimento.

Em análise, o sujeito também encontrará na relação transferencial com seu analista, caminhos para abrandar seus sofrimentos e desvendar os enigmas dos seus sintomas, porém antes disso é preciso que ele se reconheça nele. No começo o analisando fica sem saber o que existe por trás das palavras do analista: a suposição de que ele detenha a chave da verdade acerca dos seus sintomas, uma ironia que “alfineta” e provoca uma reação distinta, ou o silêncio que convoca uma fala que antes não existia. A transferência em análise então é o pilar que nos sustenta e é motor que nos movimenta e faz despertar para novas escolhas e possibilidades.

A partir dessa dinâmica, espera-se que a clínica se reinvente. Para pontuar as saídas subjetivas ao mal-estar da época em que vivemos, é preciso que nós psicanalistas estejamos atentos para os sintomas que hoje atravessam o sujeito em função da realidade atual. É preciso convocar a posição ética própria de cada sujeito. Trata-se, então, de fazer uma releitura sobre o conceito das relações sujeito e objeto, pois é nessa dinâmica que podemos dar um novo significado ao amor de transferência e suas reivindicações à escuta clínica.

No que concerne à prática clínica, cabe ao analista viabilizar novas palavras e novos significados para acompanhar com a escuta a posição para onde o desejo do sujeito se dirige com a fala. É na forma como nos expressamos e compartilhamos nossos sofrimentos em análise que percebemos uma transformação na forma de sofrer. Identificando novas formas de transpor o próprio sofrimento, proporcionando novas formas de se relacionar consigo e com o outro.

Flávia Tereza

Psicóloga/Psicanalista

CRP 01/18002

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